A Embrapa vai quebrar?
Essa pergunta pode parecer exagerada à primeira vista, mas quando analisamos os números, o histórico e o papel estratégico da instituição, o alerta é real e preocupante.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é uma das principais responsáveis por transformar o Brasil em uma potência agrícola mundial. Ainda assim, ela enfrenta cortes orçamentários severos, envelhecimento do quadro técnico e dependência crescente de recursos externos.
Neste artigo, você vai entender por que a Embrapa recebe tão poucos recursos, qual o impacto disso para o produtor rural e para a economia, e por que esse problema é mais político do que técnico.
O Que é a Embrapa e Por Que Ela é Tão Importante?
Criada em 1973, a Embrapa nasceu em um momento decisivo da história brasileira. Naquela época:
- O Brasil tinha uma agricultura basicamente de subsistência
- O Cerrado era considerado improdutivo
- O Nordeste era visto como inviável para produção em larga escala
- Grande parte dos alimentos era importada
A missão da Embrapa era ousada: criar um modelo de agricultura e pecuária adaptado ao clima tropical, algo que o mundo dizia ser impossível.
A Ciência Que Transformou o Cerrado em Celeiro Mundial
Antes da Embrapa, especialistas internacionais afirmavam que grãos não prosperavam em clima tropical. A ciência brasileira provou o contrário.
Graças a pesquisas em:
- Correção de solo
- Manejo adequado
- Genética adaptada
- Sistemas de produção integrados
O Cerrado brasileiro se transformou em uma das maiores regiões produtoras de alimentos do planeta, com uma área superior à Europa Ocidental.

Soja, Milho e Pecuária: Resultados Diretos da Pesquisa da Embrapa
Os números deixam isso muito claro:
Produção de Soja
- Anos 1970: cerca de 12 milhões de toneladas
- Hoje: mais de 150 milhões de toneladas
Grande parte desse avanço veio de cultivares nacionais, como as linhagens BRS, desenvolvidas para o clima brasileiro.
Produção de Milho
- Saltou de 15 milhões para mais de 120 milhões de toneladas
Pecuária Tropical
- Produtividade triplicada em 40 anos
- Pastagens adaptadas, manejo técnico e melhoramento genético
Além disso, o Brasil desenvolveu algo quase exclusivo no mundo: duas safras por ano (e até três em algumas regiões).
A Embrapa Não Dá Voto – E Esse é o Problema
Aqui está o ponto central:
👉 A Embrapa não dá voto.
Tecnologia agrícola:
- Demora anos para gerar resultados
- Não aparece imediatamente para a população urbana
- Não rende capital político no curto prazo
Por isso, o investimento em ciência agrícola acaba sendo deixado de lado.
O Orçamento da Embrapa Está Encolhendo Há Décadas
Os números são alarmantes:
- 1995 (valores corrigidos): cerca de R$ 1,3 bilhão
- 2025: apenas R$ 137 milhões para pesquisa, desenvolvimento e transferência de tecnologia
Isso representa menos de 10% do orçamento de 30 anos atrás, mesmo com o agronegócio sendo o setor que mais gera superávit para o Brasil.
Publicidade Recebe Muito Mais Recursos que Ciência
No mesmo período:
- O governo destinou cerca de R$ 876 milhões para publicidade
- Ou seja, oito vezes mais do que para ciência agropecuária
A lógica é simples:
- Publicidade gera visibilidade e voto
- Pesquisa gera resultado no médio e longo prazo
Consequências Práticas da Falta de Recursos
A crise já é visível dentro da Embrapa:
- Falta de recursos para água, energia e segurança
- Equipamentos de laboratório da década de 1990
- Cerca de 1/3 das unidades precisam de reformas urgentes
- Idade média dos pesquisadores subiu de 47 para 58 anos
- Mais de 40% devem se aposentar até 2032
- Em 10 anos, a Embrapa perdeu mais de 25% do seu quadro técnico
Isso significa perda de conhecimento acumulado, algo que não se recompõe rapidamente.
Dependência Crescente de Recursos Externos
Hoje, 63% das pesquisas da Embrapa só existem graças a financiamento externo, algo inédito em seus 50 anos de história.
Mesmo programas como o novo PAC:
- Destinam recursos para equipamentos
- Mas não garantem verba para custeio e operação
É como entregar uma máquina moderna ao produtor e cortar a energia no mesmo dia.
Cada Região do Brasil Depende da Embrapa
A atuação regional é estratégica:
Vale do São Francisco:
- 85% das mangas exportadas
- 95% das uvas
Matopiba:
Mais de 60% da soja usa cultivares da Embrapa
Sul:
- O trigo moderno nasceu da Embrapa Trigo
Nordeste:
- A palma resistente salvou a pecuária leiteira
Cada unidade da Embrapa entende as particularidades do seu território.
70% do Agro Exportado Tem Tecnologia da Embrapa
Um dado resume tudo:
👉 Cerca de 70% do valor exportado pelo agronegócio brasileiro tem ligação direta com tecnologia da Embrapa.
Isso inclui:
- Soja
- Milho
- Carne
- Café
- Fruticultura irrigada
- Cana-de-açúcar
- Eucalipto
- Feijão
Não é apenas o produtor que depende da Embrapa — é a balança comercial do país.
Enquanto o Brasil Corta, Outros Países Investem
- Estados Unidos: aumentaram em 40% o investimento em ciência agrícola
- China: construiu mais de 600 laboratórios em uma década
- Brasil: reduziu o orçamento da Embrapa em mais de 80%
Isso coloca em risco:
- A competitividade internacional
- A segurança alimentar
- A capacidade de resposta a pragas e doenças
Sem Embrapa, o Prejuízo Seria Bilionário
Exemplos claros:
- Ferrugem asiática da soja
- Lagarta Spodoptera no milho
Sem resposta científica rápida, os prejuízos seriam bilionários.
A Embrapa Não é Gasto. É Investimento
Cada real investido em pesquisa:
- Retorna múltiplas vezes para a economia
- Reduz riscos
- Aumenta produtividade
- Mantém o Brasil competitivo
Mas, novamente, não dá voto.
Conclusão: O Brasil Precisa Decidir o Futuro da Embrapa
A Embrapa é o cérebro do agronegócio brasileiro.
Sem ela:
- Perde o produtor
- Perde a economia
- Perde o país
Se o Brasil continuar reduzindo recursos ano após ano, não será a Embrapa que quebrará sozinha — é o Brasil que entra em declínio.
Investir na Embrapa é investir:
- Em soberania
- Em segurança alimentar
- Em crescimento econômico sustentável
O futuro do agro depende disso.
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