A ocupação da sede da Cargill, em Santarém, no oeste do Pará, por indígenas de cerca de 14 etnias, trouxe novamente ao centro do debate nacional a relação entre infraestrutura logística, meio ambiente e direitos dos povos tradicionais. A mobilização começou em 23 de janeiro de 2026 e tem como principal objetivo questionar um edital de dragagem do Rio Tapajós e iniciativas que, segundo os manifestantes, podem levar à privatização indireta do rio.
O Tapajós é considerado pelos povos indígenas um território vivo, essencial não apenas para a subsistência econômica, mas também para a identidade cultural, espiritual e social da região.
Por Que o Rio Tapajós Está no Centro do Conflito
O Rio Tapajós é um dos principais cursos d’água da Amazônia e desempenha papel estratégico no transporte fluvial e no equilíbrio ambiental. Para as comunidades indígenas e ribeirinhas, o rio vai muito além da navegação: ele sustenta a pesca, o modo de vida tradicional e a memória ancestral dos povos da região.
Os protestos surgiram após a publicação de um edital de dragagem em dezembro de 2025, que prevê intervenções no leito do rio para facilitar o tráfego de grandes embarcações. As lideranças indígenas afirmam que o projeto pode causar danos irreversíveis ao ecossistema, além de afetar diretamente comunidades que dependem do Tapajós para sobreviver.
Principais Riscos Apontados Pelos Indígenas e Especialistas
Segundo o movimento indígena e pesquisadoras do Grupo de Trabalho Infraestrutura (GT Infra), o projeto apresenta uma série de falhas e riscos que precisam ser debatidos com mais profundidade.
Falta de Consulta às Comunidades Tradicionais
Um dos principais pontos de crítica é a ausência de consulta livre, prévia e informada, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). As comunidades afirmam que não foram ouvidas antes da elaboração do edital.
Licenciamento Ambiental Incompleto
De acordo com os manifestantes, o projeto de dragagem não possui licença ambiental definitiva. Até o momento, existiria apenas um termo de referência emitido pela Secretaria de Meio Ambiente do Pará, o que gera insegurança jurídica e ambiental.
Ameaça ao Patrimônio Arqueológico
A ampliação das áreas de dragagem inclui regiões próximas a Itaituba, onde já foram identificados sítios arqueológicos e urnas funerárias indígenas. A intervenção pode comprometer patrimônios históricos de valor incalculável.
Ligação com Grandes Projetos Logísticos
Os indígenas também associam a dragagem à expansão da logística do agronegócio, especialmente à futura Ferrogrão, ferrovia projetada para o escoamento de grãos. Para os manifestantes, esses projetos priorizam interesses econômicos em detrimento das populações locais.
O Papel da Cargill no Debate
Embora o protesto ocorra em frente às instalações da Cargill, a empresa afirma que não é responsável pelo edital de dragagem. Em nota oficial, a multinacional declarou que respeita o direito de manifestação, mas ressaltou que o tema é de competência do poder público.
A empresa também informou que a presença dos manifestantes tem impedido a entrada e saída de caminhões, impactando suas operações logísticas na região.
Governo Federal Defende Projeto e Promete Diálogo
O conflito ganhou ainda mais repercussão após críticas ao Decreto nº 12.600, que autoriza concessões de hidrovias à iniciativa privada. Para os povos indígenas, a medida abre precedentes perigosos ao tratar rios amazônicos como ativos econômicos.
O Ministério de Portos e Aeroportos, por sua vez, afirma que a dragagem prevista é de caráter técnico e preventivo, com o objetivo de evitar contratações emergenciais no futuro. O órgão reforça que nenhuma intervenção será realizada sem o cumprimento da legislação ambiental e que o governo está dialogando com as comunidades para prestar esclarecimentos.
Um Conflito Que Vai Além da Infraestrutura
Mais do que uma disputa sobre logística ou transporte fluvial, o caso do Rio Tapajós expõe um debate maior sobre modelos de desenvolvimento na Amazônia. Para os indígenas, defender o rio é defender a própria vida, a cultura e o direito de decidir sobre o futuro do território.
Enquanto não houver consenso e garantias claras de proteção ambiental e respeito aos povos tradicionais, a tensão na região deve continuar.




