Por que o dinheiro urbano ainda tropeça ao tentar entender o campo brasileiro
Nos últimos anos, a Faria Lima descobriu o agronegócio. Fundos, Fiagros, CRAs, LCAs e promessas de retornos acima do CDI passaram a dominar as apresentações de investimento. Mas, junto com esse movimento, veio um problema sério: bilhões de reais foram alocados sem entendimento profundo da dinâmica do agro.
O resultado já começou a aparecer: recuperações judiciais, calotes, fundos pressionados e investidores frustrados. A pergunta que fica é direta: onde exatamente a Faria Lima errou ao investir no agro?
🌱 Um setor centenário tratado como “novidade financeira”
O agronegócio brasileiro não nasceu ontem. Ele existe desde o século XVI, mas o agro moderno, produtivo e competitivo, se consolidou a partir dos anos 1970 — longe da Faria Lima.
Por décadas, o produtor rural se financiou via:
- Crédito rural oficial
- Banco do Brasil
- Política agrícola e subsídios
Somente após os anos 2000, com instrumentos como CPR, CRA, LCA e mais recentemente os Fiagros, o mercado financeiro urbano passou a enxergar o agro como oportunidade.
O problema? O capital chegou antes do entendimento.
📉 O maior erro: ignorar a volatilidade estrutural do agro
A Faria Lima costuma olhar empresas com lentes urbanas: previsibilidade, margens constantes e crescimento linear.
O agro não funciona assim.
O produtor rural vive sob três volatilidades simultâneas:
- Custo – fertilizantes, defensivos, diesel e insumos variam globalmente
- Produção – clima, seca, excesso de chuva, pragas
- Preço – commodities não são controladas por quem produz
Quando custo, produção e preço oscilam juntos, o resultado é uma montanha-russa financeira.
Em 2021 e 2022, muitos investidores acreditaram que o agro “só subiria”. Foi exatamente nesse pico que vários Fiagros nasceram — comprando ativos no topo do ciclo.
🚨 Crédito mal avaliado e alavancagem excessiva
Outro erro bilionário foi emprestar para quem já estava alavancado demais.
Muitos produtores já tinham:
- Crédito do Plano Safra
- Operações de barter
- Empréstimos bancários
O mercado de capitais entrou como dinheiro adicional, elevando o risco sistêmico.
Quando o ciclo virou, não houve margem de segurança. Vieram:
- Recuperações judiciais
- Inadimplência
- Pressão sobre fundos e investidores
🧾 Governança frágil: um risco subestimado
Boa parte do agro brasileiro ainda opera com:
- Pessoa física
- Livro-caixa
- Sem balanço auditado
- Contabilidade focada em imposto, não em gestão
É comum ver produtores com:
- Patrimônio milionário em terras
- Máquinas modernas
- Controle financeiro feito no Excel
Para o mercado financeiro, isso é um campo minado.
Avaliar crédito sem governança sólida é apostar no escuro — e muitos apostaram.
🧠 Quando o número engana e o caráter importa
No agro, conhecimento local vale ouro.
Historicamente, o crédito rural funcionava porque:
- O financiador conhecia o produtor
- Sabia quem pagava e quem não pagava
- Entendia momentos de investimento e queda de margem
Com a consolidação financeira, esse conhecimento foi substituído por análises frias, metas trimestrais e modelos padronizados.
Resultado?
Crédito aprovado para quem “parecia bom no papel”, mas não sustentava o negócio no campo.
🌾 O erro inverso: o agro também não entende a Faria Lima
A falha não é só de um lado.
O agro sempre negociou dívida com:
- Governo
- Bancos públicos
- Renegociações políticas
No mercado de capitais, a lógica é outra:
- O investidor não renegocia, ele vende
- A cota cai
- O crédito some
Quando o produtor ameaça “quebrar”, o efeito não é negociação — é fuga de capital.
Essa mudança de mentalidade ainda não foi totalmente absorvida pelo setor rural.
🏗️ Onde a Faria Lima realmente pode ajudar o agro
Apesar dos erros, o mercado financeiro tem um papel fundamental no futuro do agro.
Ele pode financiar o que o crédito tradicional não consegue:
- Armazenagem
- Irrigação
- Silos
- Infraestrutura
- Projetos de longo prazo (10, 20, até 40 anos)
Esse tipo de capital é essencial para aumentar eficiência, produtividade e competitividade.
Mas só funciona com:
- Governança
- Transparência
- Gestão de risco
- Comunicação clara entre campo e mercado
🔮 O futuro depende de entendimento, não de hype
O agro não é uma moda passageira.
E a Faria Lima não é inimiga do campo.
O problema surge quando:
- Um lado investe sem entender
- O outro toma crédito sem se preparar
O próximo ciclo do agro será mais profissional, mais transparente e mais exigente.
Quem ajustar governança e comunicação vai acessar capital.
Quem ignorar isso, ficará pelo caminho.
✅ Conclusão
O erro bilionário da Faria Lima não foi investir no agro.
Foi investir sem entender como o agro realmente funciona.
O agro é cíclico, volátil e patrimonial.
Exige paciência, margem de segurança e leitura profunda do negócio.
Quando campo e mercado falarem a mesma língua, o potencial é gigantesco.
Até lá, o aprendizado continua — custando caro para quem ignora a realidade.
